quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O acordar de um longo sono...

Tenho uma memória muito desorganizada, não segue uma linha (crono)lógica nem, tão pouco, consigo identificar com precisão "os quandos" de cada lembrança. Sei "os comos" e quanto "aos porquês", deixei de procurar resposta no minuto em que percebi que a minha vida fora como um rio cuja corrente fui seguindo sempre apoiada numa canoa que me amparou nas quedas mais altas, durante as correntes mais revoltas e afastou dos afluentes mais perigosos.

Durante muito tempo foi-me impossível conceber um Deus que me tivesse criado para depois me abandonar em caminhos tão precocemente tortuosos. Durante grande parte da minha vida senti-me sozinha num mundo sem propósito, sem sentido, onde o absurdo Kafkiano era-me servido ao pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, onde tudo era permitido ao sabor dos pequenos poderes de cada um. Um dia, já depois dos trinta, consegui afastar-me "do quadro" e olhar com atenção para esse caminho, sem dúvida doloroso, que me permitiu conhecer o lado mais escuro dos homens, mas onde nunca me afundei. Olhei para o meu reflexo nas águas e, qual Narciso, vi uma mulher presunçosamente orgulhosa da sua solitária amargura. Mas como sempre, as aparências iludem e, por detrás dessa mulher vi aparecer outra profundamente grata ao perceber que tivera desde sempre Deus ao seu lado para a amparar, amar e perdoar a cada passo.

Voltando à memória desconjuntada, diziam-me no outro dia que é normal em pessoas com "Síndrome Pós-Traumático". Não sei se tenho/sofro de tal síndrome, mas percebo que é uma forma de auto-defesa, o aparente branqueamento de mágoas, a centrifugação das lágrimas, o barramento das dores... No entanto consigo olhar para trás e saber por onde passei, consigo desenhar o caminho que fiz até aqui e, ao olhá-lo, é-me claro que cada passo que dei me aproximou mais e mais de Deus. As tristezas, o sofrimento, o total absurdo, foram o berço onde germinou uma imensa esperança. Sem saber fui alimentando uma enorme capacidade de amar e perdoar, de me dar aos outros como fonte dessa confiança que só na bondade e amor absoluto e incondicional de Deus pôde nascer.

Lembro-me com muita nitidez (coisa rara) do dia em que descobri Deus em mim. Vinha a sair do consultório do meu médico, com quem partilho não só os achaques físicos mas também os anseios espirituais, aos quais ele respondeu sempre com uma enorme devoção e fé. Saía então do seu consultório em Lisboa num fim-de-tarde solarengo de Junho, quando me senti a pessoa mais pequenina e presunçosa da Terra por me ter achado sozinha. Atravessei a passadeira com as lágrimas a escorrer pela cara, ao mesmo tempo que sentia o coração completamente iluminado e grato por me ver tão cheia do Espírito Santo! Que estranho paradoxo, tão claro, tão vivo e ao mesmo tempo tão íntimo que quase não o consegui verbalizar ao meu marido ao chegar a casa.

Dizê-lo em voz alta era quase um sacrilégio. Eu, eu que até ali me tinha impedido sequer de conceber a ideia de um Deus... Quem me julgava eu para me permitir sentir digna do Seu amor, da Sua bênção?!
Foi nesse dia que me vi inteira, com os meus defeitos e as minhas falhas, com as bagagens que o passado me trazia mas que, no fundo, mais não foram do que a possibilidade de me encontrar um dia com as ferramentas necessárias para ajudar outros a seguir caminho. É que este encontro não trouxe só alegria e gratidão (embora o tenha trazido em abundância), trouxe também a convicção duma responsabilidade em continuar caminho com a certeza de carregar em mim uma minúscula fagulha de Deus que pede com todas as forças para ser partilhada com quem comigo se cruza nos caminhos da vida.
No dia em que me senti tão cheia, percebi que só o poderia continuar a sentir se encontrasse forma de encher os outros. Para mim, encontrar Deus foi encontrar a urgência de O gritar ao mundo, de O espalhar em dádiva que é gratidão ao mesmo tempo. Foi nesse dia que entendi que a minha vida estava prestes a mudar para sempre, e que agora ia a caminho do Arco-Íris...

Liliana




"Agora, acontece que, por um acaso extraordinário, conheci a verdade sobre a mais debatida das causas e sobre o mais antigo dos problemas: Deus existe. E eu encontrei-o!

Encontrei-o por combinação - antes deveria dizer: por acaso, se o acaso tivesse algo a ver com esta espécie de aventura. - Encontrei-o com o assombro e aturdimento de quem, ao virar a esquina habitual da costumada rua de Paris, visse diante dos olhos, em vez da praça e do cruzamento de todos os dias, um mar inesperado que se estende até ao infinito(...).

Ás cinco e dez de uma tarde (era o dia 8 de Julho de 1937), entrei numa capela do bairro latino de Paris para procurar um amigo e saí às cinco e um quarto, com um amigo que não era deste mundo. Em pé junto da porta, busquei com o olhar o meu amigo e não consegui reconhecê-lo(...). E, então, de repente, desencadeia-se uma série de prodígios que com inexorável violência desmontará num instante o ser absurdo que eu sou, para dar vida ao rapaz estupefacto que nunca fui.(...)

Há uma ordem, no universo, e no cume, para lá deste véu de neblina resplandecente há a evidência de Deus(...). Um Deus cuja doçura sinto, uma doçura activa, desconcertante, que vai além de toda violência, capaz de quebrar a pedra mais dura e, mais duro ainda que a pedra, o coração humano.(...) A sua irrupção transbordante e total, é acompanhada por uma alegria que é a exultação de quem foi salvo, a alegria do náufrago que foi recolhido a tempo.(...)

Estas sensações, que tenho dificuldade de traduzir na linguagem inadequada das ideias e das imagens, são simultâneas(...). Tudo é dominado pela presença(...) daquele cujo nome nunca poderei escrever sem o receio de ferir a sua ternura, aquele diante do qual tive a sorte de ser um filho perdoado, que se esforça para aprender que tudo é dom.(...)

Não nego o que uma conversão como esta, pela sua característica de instantaneidade imprevista, pode ter de chocante e até inadmissíevl, para os espíritos contemporâneos que preferem as vias do racionalismo aos raios místicos e que apreciam cada vez menos as intervenções do divino na vida quotidiana."

André Frossard

"Deus existe, eu encontrei-O"

Caminhos passados