Houve uma espécie de casulo interior que se formou em mim, desde aquele fim-de-tarde solarengo de Julho em que saí do médico e, deambulando pelas ruas Lisboetas, me encontrei pela primeira vez olhos-nos-olhos com o Mistério da Fé e a ele me entreguei.
Há como que um céu mais azul, uma noite mais estrelada, uma lua mais forte e um sol mais ameno que se abrem, jorrando uma imensa paz, alegria e gratidão interiores para aqueles que acordam para o Senhor a meio das suas vidas. Mas tudo isso se passa, não no reino da Terra, mas no reino de Deus que pulsa no mais íntimo recanto do coração de cada um e, por isso, embora tenha um impacto estonteante para quem o vive, é completamente alheio aos outros, mesmo aos que de mais perto com ele vivem.
Passei muitos dias num verdadeiro estado de enamoramento, como que flutuando por sobre um mundo que para mim mudara tão radicalmente sem, no entanto, se ter alterado um milímetro para todos os outros. E a verdade é que as palavras não eram suficientes para explicar o que se passava dentro de mim, aliás, não encontrava palavras suficientemente "dignas" para falar de algo tão Divino. Vejo agora que, talvez este pudor me tenha afastado (ou desaproximado) daqueles que amo, criando uma certa imcompreensão em relação ao que viria a ser o horizonte para o qual me começaria a dirigir.
Esta convicção de que Deus vive em mim desde sempre, desde o dia em que fui concebida, e que, para o bem e para o mal, todo o meu caminho foi como que uma preparação para O viver em partilha e em dádiva com e para os outros, é algo que me foi muito claro logo a partir dos primeiros dias.
Em termos profissionais nunca me sentira particularmente realizada - era secretária, e há muito que sentia uma grande inquietação em descobrir outros rumos que me remeteram sempre para coisas, de alguma forma, relacionadas com artes e com contacto com outros. Foi, por isso, natural perceber que, aquilo em que tinha começado a investir em termos de formação especializada e iniciado como passatempo, se tornava cada vez mais o centro de toda a minha energia.
Deixei de me apresentar como Secretária para o começar a fazer com Contadora de Histórias (o que, por estes lados, não é visto sequer como profissão). Na verdade, a minha ainda reduzida experiência como Contadora provava-me a cada dia que eu mais não era do que um pequeno instrumento de algo muito mais profundo e abrangente do que conseguia imaginar. É que a forma como conseguia chegar aos outros, através das palavras, dos contos, das perguntas, não podia partir apenas de mim. Era como se fosse eu não sendo, era eu abandonando-me na Sua voz e vontade a cada história, a cada palavra, a cada expressão, a cada poema, em cada olhar que cruzava com alguém da audiência.
Deixei de me apresentar como Secretária para o começar a fazer com Contadora de Histórias (o que, por estes lados, não é visto sequer como profissão). Na verdade, a minha ainda reduzida experiência como Contadora provava-me a cada dia que eu mais não era do que um pequeno instrumento de algo muito mais profundo e abrangente do que conseguia imaginar. É que a forma como conseguia chegar aos outros, através das palavras, dos contos, das perguntas, não podia partir apenas de mim. Era como se fosse eu não sendo, era eu abandonando-me na Sua voz e vontade a cada história, a cada palavra, a cada expressão, a cada poema, em cada olhar que cruzava com alguém da audiência.
Perceber isto é difícil, é duro, assusta e levanta dúvidas - dizê-lo é ainda mais complicado - ouvi-lo é (ou foi para os meus) quase impossível. Mas na verdade, algo dentro de mim gritava com todas as forças "estás certa é este o teu caminho para Mim". Pela primeira vez na vida sentia uma certeza que se expressava, não só em termos espirituais mas também físicos em cada nervo do meu corpo vibrava uma nova sensação, a consciência do Espírito Santo.
O medo e a falta de validação levantaram dúvidas, que foram muitas, estaria eu a entender bem o que se passava? Porquê comigo? Seria eu por ventura "digna" de tal proposta? Porque ninguém parecia acreditar no que eu sentia no mais fundo de mim mesma? Porque algo tão sagrado estava ser o início de tanta discórdia e mal-estar familiar? Teria o meu marido razão? Estaria eu a "inventar" sinais apenas por comodismo? Estaria eu louca, como o meu pai?
E foi no meio das perguntas que fazia a mim mesma e dirigia a Deus todas as noites, que coloquei os primeiros tijolos amarelos no que viria a ser o meu caminho para o arco-íris.
Liliana

"Contempla o arco-íris e bendiz Aquele que o fez; é muito belo no seu resplendor. Ele cerca o céu com um círculo de glória; são as mãos do Altíssimo que o estendem."
(Sir 43, 11)
