"A uma hora estranha, Senhor, me estás a obrigar." (*) Nestes dias que se desfiguram e, sem aviso prévio, deixam a nu uma imensidão de medos, um exército de fantasmas de outros dias, de outras horas, de outras vidas que por mim passaram.
Estranha hora, Senhor. Esta em que o real se rasga em cenários de papel por onde me perco e me projecto em personagens que me afogam e me levam para longe de mim, para longe de Ti.
Onde estou eu, quando à minha volta uma aguarela se desfaz e uma mistura de cores escorre pelas minhas lágrimas e me inflama os olhos escondendo a luz? Como volto para o santuário onde me sinto segura, ao Teu lado, inteira, com Tua força e confiante, no Teu Amor? Porque me perco do caminho e entro na escuridão duma floresta interna que, julgava já replantada, reconstruída, refeita e ultrapassada?!
"Não tenhas medo", dizem-me vozes amigas em que sei posso confiar. E, no entanto, uma antiga inquietação me persegue e me surpreende num dia de sol. Sei que não estou sozinha, sei que Estás aqui, comigo. Mas o vazio onde cresci reclama, ainda, uma presença viva, quero ir ter contigo por sobre as águas mas tenho, ainda, medo de me afundar. Ó mulher de pouca fé, que tanto te ajoelhas mas ainda não te consegues entregar sem olhar para trás...
A uma hora estranha, Senhor, me estás a obrigar. Mas se é este o caminho que me pedes para atravessar, não terás a Tua razão? Pois que só Tu sabes das histórias que as estrelas escrevem nos céus e dos cânticos que os anjos entoam na noite. E aquilo a que chamamos Fado, quem sabe, mais não é que uma chave para abrir o meu no Teu coração.
Ajoelho-me aos pés da cama. Quem sou eu para Te falar das dores do caminho, dos medos e das mágoas que se atravessam nas noites brancas? Não me quero humilde aprendiz de Teu filho? Como Ele também eu Te digo que preferiria não passar por esta hora, por este deserto, por este desespero, mas se é esta a Tua vontade, com a ajuda do sim de Maria e da força do Espírito Santo, que assim seja! Farei o caminho o melhor que possa, para Contigo encontrar a paz.
Com esforço, pego em mais um tijolo amarelo e acrescento á estrada que, devagar, se vai encaminhando "lá para os lados do Oriente" até ao Arco-Íris.
Liliana

"1.
Talvez pesadas montanhas atravesse
por duros veios, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distancia: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.
Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que tua inteira mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento.
2.
(...)
A uma hora estranha, Senhor, me estás a obrigar."
Terceiro Livro - O livro da pobreza e da morte
em (*)"O livro de horas" de Rainer Maria Rilke
