quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Olhos na estrada

A paisagem é estéril ou frondosa de acordo com os olhos com que escolhemos olhar para ela.

O tom da terra seca impregna-me os olhos, seca-os, faz-me chorar e pinta de ocre tudo o que me rodeia. A areia fina entra-me pela roupa e cola-se-me ao corpo secando-me a pele. Tudo é final de algo não começado, não há vida nem esperança só o vazio de um ventre estéril.

Se fechar os olhos e me imaginar num Colo Paterno, respirar fundo e me deixar inspirar pelo Seu amor, quando abro os olhos do vazio nasceu a esperança, do estéril brotou a criação e os meus olhos deixam de doer e quando choram é de gratidão e alegria por tamanha misericórdia.

Nada aqui é acaso, tudo se encaixa e faz sentido se visto e entendido à luz do Espírito Santo. Nem as quedas o são na verdade, são etapas dum caminho que percorro de mão dada com Cristo. As árvores e flores, os riachos e montanhas vão sendo pintados a cada passo deste meu caminhar. As subidas e descidas são provas da minha capacidade de ver o mundo com os olhos do coração e não me deixar inundar pela areia seca do mundo, sabendo que não estou só, afinal que pai deixa o seu filho às agruras da vida? Muito menos o fará Deus Pai do Céu, que nos ama e nos quer sempre junto dele.

Vejo muitas vezes a terra ocre à minha volta. Perco-me muitas vezes no deserto estéril e seco. Mas assim como o Sol nasce todas as manhãs, a minha fé acaba (começa?) sempre por me levar de novo ao Colo quente e seguro que me acalma e me perdoa com toda a misericórdia.

Neste caminho de regresso a casa vou encontrando intermediários que, à semelhança de Cristo, me dão a mão e me indicam a estrada certa. E quando lá chego, percebo que nunca de lá saíra, os meus olhos é me traíram. 

E assim acrescento mais um tijolo nesta estrada amarela a caminho do arco-íris...

Liliana



"É um cristal indestrutível, duma transparência infinita, duma luminosidade quase insuportável (um grau a mais ter-me-ia aniquilado) e a tender para o azul, um mundo, um outro mundo dum fulgor e duma densidade que atiram o nosso para as sombras frágeis dos sonhos inacabados. É a realidade, é a verdade, vejo-a da margem obscura onde ainda estou retido."
André Frossard - "Deus existe, ei encontrei-o!"

Caminhos passados