sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Em descoberta do Perdão

O mundo mudou para mim desde aquela tarde de Junho, há 5 anos. PARA MIM o mundo mudou, ficando aparentemente igual para o resto dos seus habitantes...

A minha descoberta interior, a gratidão, o estado de graça que nasceu naquela tarde e que deu sentido a todo um encadeado de tristes circuntâncias pobremente acompanhadas ao longo dos meus escassos trinta anos, fez-me descobrir algo que até aí só conhecia dos filmes e livros - o perdão. Esta realidade era-me tão distante como a ideia de que existe vida extra-terrestre.

Como a grande maioria de nós, fui avançando pela vida afirmando "eu desculpo", "eu entendo", "eu perdoo", mas no fundo fica-nos sempre o amargo de boca do "mas não esqueço". Este perdão é falso, serve-nos para afagar o ego e acharmo-nos boas pessoas, mas não passa duma mentira politicamente correcta. E o pior é que as marcas que vamos deixando em nós mesmos não saram com os passar dos anos, antes gangrenam e sangram a cada sacudidela da vida.

A experiência do perdão, da aceitação, do amor incondicional chegou mesmo a ser algo de violento. Perceber que no amor de Deus há um colo, um ombro, um abraço, que nos esperam sem condições ou julgamentos, era-me algo tão poderoso como desconhecido e deixou-me completamente desarmada. Seria eu capaz de seguir Cristo nesse caminho de perdão? E se não tivesse capacidade para, desde logo, perdoar a tantos a quem guardava rancor, conseguiria perdoar-me a mim própria?

Esse desafio, ao lado de um passado perturbado a meio caminho da aceitação, iniciou-se em casa, com a minha família, com o meu marido aparentemente desligado de toda esta Boa Nova que desabrochava em mim e das consequências que se começavam a mostrar. A falta de validação daquilo que eu sentia como algo me estava a ser dado em Dom e que, ao mesmo tempo me pedia para ser partilhado, criou uma mágoa muito grande dentro mim e um vazio entre nós os dois. Não conseguia entender o porquê da sua percepção de que eu, no fundo, estava a ser egoísta e essa ideia magoava-me.

Percebi então o quão fácil é dizer que queremos seguir Cristo, mas fazê-lo na realidade do dia-a-dia é uma tentativa, um processo contínuo, que nos exige esforço, concentração e uma disponibilidade interior para nos sabermos humildemente em constante aprendizagem.

Para perdoar o outro tenho, primeiro, de me saber perdoar a mim mesma e, intimamente, saber aceitar o amor incondicional que Deus me oferece. Só então poderei conseguir perdoar os que me rodeiam. E é mais fácil, apesar de tudo, perdoar o que lá vai (até porque "águas passadas não movem moinhos") do que o que se passa aqui e agora e joga com valores tão complexos como Família, Casamento e todas as expectativas que daí vamos criando.

Estamos sempre em processo, mas essa consciência já é, per si, significado de crescimento, de desenvolvimento pessoal. E assim, acrescentei mais uns tijolos na estrada até ao Arco-Íris.

Liliana



"Em cada coração há uma parcela de dom pastoral. Em cada pessoa há dons únicos. Porquê, duvidar tanto dos seus? Porquê, ao comparar-nos com os outros, desejamos ter as capacidades delese vamos até ao ponto de fugir das nossas?

(...)

Seguir o caminho do Evangelho onde se encontra o olhar de Cristo tem um nome: aceitar. Aceitar os seu próprios limites: os da inteligência, os da fé, os das suas capacidades. Aceitar também os seus próprios dons. E então as grandes criações nascem."

"Florescem desertos no coração" - Irmão Roger

Caminhos passados