Foi numa noite escura e quente que me distanciei do caminho dos tijolos amarelos. Sem dar por isso dei comigo perdida no meio duma floresta, sem pontos de referência ou ilhas para aportar. Lancei a âncora na escuridão e aterrei no meio dos meus fantasmas que me cegaram à luz do Senhor. Senti-me só, abandonada como um criança no meio de um comprido corredor escuro. Tive pena de mim e convenci-me que nada nem ninguém me poderia algum dia entender, ajudar ou amar.
Esqueci-me da Tua mão que, desde os primeiros passos me acompanha. Duvidei do Teu imenso e absoluto amor. E orientei a minha bússola pelas constelações das dúvidas humanas.
Sou uma pessoa "naturalmente programada para um final feliz que quando não o consegue encontrar se deixa invadir pelo desespero e opta pelo drama", disseram-me há dias. Fiquei a pensar no que representam - final feliz versus drama, não do ponto de vista racional, mas na minha vida real, o que foram finais felizes e o que acabou em desespero. Na verdade sempre tive uma enorme capacidade de "pintar" o mundo de cor-de-rosa e foi esse dom que me conduziu até aqui. Penso que posso dizer que cada dia que nasce deveria ser encarado por mim como um final feliz porque, no fundo, é a semente de um início, de uma fé renovada. Este "programa" esteve desde sempre inscrito em mim, mesmo que não o visse ou que desconhecesse a sua existência, essa foi claramente a procura de Deus em mim e no mundo, onde o absurdo por onde passei perdeu força ao ser emergido na água do perdão, da aceitação e do amor incondicional.
O facto é que andei tanto tempo em círculos que, mesmo depois de descobrir em mim a minúscula fagulha da enorme fogueira do Amor Divino, nas noites mais escuras, a minha pequenês humana os meus medos e angustias, conseguiram encobrir os sinais de fumo pelos quais me quero orientar. Naquela noite quente e escura, por mais que tentasse projectar finais, não conseguia ver o caminho até eles. Todas as estradas iam dar a um grande sofrimento, a um afastamento de mim quase impossível de suportar. Depois de percorrer vários atalhos que desembocaram em becos sem saída, vi-me cansada, sem forças e sem mapa estrelar. Desisti de lutar, de andar, de continuar. Queria dormir, descansar, dormir e não acordar mais.
O mais impressionante é que aquela noite escura foi, talvez, uma das noites mais bonitas da minha vida. Porque mesmo depois de me abandonar ao desespero, mesmo depois de perder a vontade de viver, mesmo depois de desistir, Deus não largou a minha mão. Foi na noite em que me deixei afogar que entendi verdadeiramente que sou filha de Deus e que os finais felizes são possíveis para mim, porque Ele me "programou" para os encontrar (do lado de cá ou de lá do arco-íris).
Apesar da noite escura e dos "dramas" a que me entreguei o Sol amanheceu e, aos poucos, o meu coração foi reencontrando os tijolos com que continuo a fazer o caminho que me levará até ao Arco-Íris...
Liliana

"Assim apenas como criança acordei,
tão seguro ao confiar
depois de cada medo e de cada noite que passei
para te voltar a comtemplar.
Sei, sempre que o pensamento mede à vez,
a profundidade, a largura, o comprimento:
mas tu és e és e és,
rodeado pela tremura do tempo."
"Livro da vida Monástica" em " O livro de horas"
de Rainer Maria Rilke
